As vezes me sinto estrangeira entre os meus. Como se tudo que eu digo não expressasse realmente a minha vontade, bem a maneira de quem não domina totalmente uma outra língua.
Essa falta de domínio está muito mais ligada a toda a minha bagunça emocional que a ausência de um vocabulário específico.
Porque é tão difícil se conectar com o outro de modo que a conversa reflita exatamente as intenções e os sentimentos?
Será o meu medo ou o encontro do meu medo com o medo do outro?
Talvez eu não seja o único caos ambulante. Certamente não sou. O difícil é esse caos dialogar. Meu caos, seu caos. Será que um dia haverá cosmos?
Cada vez chego mais próximo de crer que os maiores entendimentos, as verdadeiras comunhões, são aquelas sem palavras, no instante em que apenas um olhar reflete a alma.
Um blog pra falar do feminino, sobre o que for existencial ou não, essencial ou fútil, mas que tenha verdade, humor, sacanagem, desafio, arte, cultura, amizade, experiências verdadeiras ou fictícias. Bem vindo a nowhere land.
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
O tempo que as coisas duram
Meu chefe fuma. Desde que eu parei de fumar, tenho a impressão de que ele pensa que eu cobiço cada tragada que alguém dá em um cigarro.
Hoje eu tive a chance de dizer que não é bem assim. Ele elogiou o café e eu disse que concordava. Ele me olhou espantado e eu disse que voltei a tomar café porque não sentia mais vontade de fumar. Os fumantes que tomam café, sempre associam uma coisa a outra. Ele me parabenizou e eu atribui o sucesso a um remedinho que estou tomando (sou a garota propaganda da bupropiona).
Então ele me disse, num raro momento de conversa amena, que consegue ficar o dia todo sem fumar, se ele souber que à noite vai poder acender o cigarro.
Isso me lançou numa reflexão estranha. O problema de parar de fumar é pensar que é para sempre. Se não for para sempre, você não deixou de ser fumante. Se fumar de vez em quando, é fumante eventual, mas é fumante.
E aí é que mora o problema. O tal do para sempre.
Para sempre me parece uma sentença de danação no inferno. Ainda que a princípio a proposta seja boa. Por exemplo, você está apaixonado. Mas basta dizer que você vai ficar casado pra sempre com fulana pro sonho acabar. Tá bom, ainda que não acabe, a idéia parece muito menos atraente. Isso quer dizer que, no metter what, você vai passar o resto da vida fazendo sexo com a mesma pessoa, acordando e dormindo ao lado dela, brigando, fazendo as pazes (If lucky). E isso implica em renúncia a todas as outras pessoas com quem você poderia se envolver, pelo menos dentro da idéia de um casamento monogâmico.
Mas vamos piorar um pouco: Imagine a seguinte frase: Você vai ficar nesse emprego pra sempre. Aí sim acabou a minha vontade de levantar da cama. Mesmo chefe, mesmos colegas de trabalho, ou pior, colegas de trabalho que passam e você sempre fica. É quase pior que o “entre quatro paredes” do Sartre. Sartre achava que o inferno são os outros. Eu acho que o inferno é o tal do para sempre.
Você vai morar nessa cidade pra sempre, pra sempre esses serão os seus amigos, pra sempre vai passar as férias ali, pra sempre vai seguir essa rotina.
Rotina por si só já é ruim, pois implica na repetição dos mesmos atos metodicamente em um determinado espaço de tempo, como a semana. Pode até dar a sensação de segurança de uma vida no eixo, mas não tem surpreza.
O que mata no pra sempre é a falta de novidade, a falta de desafio.
Não quero ser de jeito nenhum para sempre. Até porque o único pra sempre que eu queria não existe: o feliz pra sempre. Mas pensando bem, até o feliz pra sempre ia acabar sendo um saco.
Prefiro a intensidade do que não é durável. A novidade do sem rumo certo. O desafio de tornar diferente o mesmo relacionamento. Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante. Beijo Raul...
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
Esse blog era pra ser leve...
Esse blog era pra ser leve. Era também pra ser escrito por três amigas. Duas delas não são mais capazes de se falar. Uma está extremamente defendida. Esse blog era pra ser pensado, secreto, anônimo, estudado convenientemente para não deixar escapar nada que comprometa. Essa pretensão toda já não me importa mais. Hoje sou solta no espaço e sinto-me barco a deriva. A vida não é nunca como o planejado. E quem acha que é assim está se enganando. Quero deixar transbordar a alma, mostrar o que não é bonito. Hoje sou borrão. Sou agressiva e irrascível. Sou ferida sem casca. Amanhã não sei. Mas todo dia não quero ser nada mais que verdade.
Drummond mata a pau.
Definindo meu estado de espírito:“Você só precisa ter calma e não desejar tanto. Do desejo é que saem as angústias.”
Brinquedo de corda
Meu coração é um brinquedo de corda quebrado,
esquecido em uma loja de penhores qualquer.
Sinto me ingênua e obsoleta ao constatar que pensei
que o amor bastasse para que o entendimento se fizesse.
Como se reconciliar com o passado? Com aquilo que não está em minhas mãos
e há tanto tempo não depende de mim?
É como não ter dinheiro pra resgatar do prego as pequenas alegrias.
A Bahia já me deu régua e compasso,
mas me tirou a vontade de desenhar.
esquecido em uma loja de penhores qualquer.
Sinto me ingênua e obsoleta ao constatar que pensei
que o amor bastasse para que o entendimento se fizesse.
Como se reconciliar com o passado? Com aquilo que não está em minhas mãos
e há tanto tempo não depende de mim?
É como não ter dinheiro pra resgatar do prego as pequenas alegrias.
A Bahia já me deu régua e compasso,
mas me tirou a vontade de desenhar.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
Amor polaroid...
Logo que mudamos pra Tupã, meu pai recebia com frequência a visita da sobrinha de sua primeira esposa.
Minha mãe não apreciava o fato, o que tornava mais que adequada a minha presença na sala durante as conversas dos dois.
Renata tinha uma irmã gêmea, seus dezoito anos, cabelos bem pretos presos num rabo de cavalo e na minha memória sempre trajava um short jeans bem curto, regata preta, chinelos de dedo de couro e ostentava nas mãos um chaveiro do mesmo material, que devia ser de um carro ou moto, não lembro ao certo...
Ela exercia um verdadeiro fascínio sobre mim, uma criança de dois pra três anos... Eu intuía que aquele modo de vestir e aquela chave nas mãos representavam pra mim a liberdade, antes mesmo de saber o que isso significava, o que fazia com que aquela visita, bisbilhoteira e incômoda para minha mãe, me fosse tão agradável.
Naquela idade eu não falava muito. Mas era uma observadora muito mais atenta do que sou hoje.
A presença de Renata me transportava para um estado de euforia, mais que isso, me despertava um sensação ou sentimento sem nome.
Eu tinha vontade de me prostrar ao lado dela, ombro com ombro, quase encostando, e de vez em quando olhar bem fixamente em seu rosto, porém de maneira furtiva.
Não que ela ou meu pai notassem a minha presença na sala. Então eu me metia em baixo da cadeira dela, enquanto eles conversavam, e quando não suportava mais não existir praqueles dois, dava um puxão com toda força no rabo de cavalo de Renata, despertando abruptamente sua atenção.
Obviamente que aquela moça, tão adulta perto de mim, não gostava de ser chamada para minha realidade infantil daquela forma.
Eu, por outro lado, sentia uma satisfação tão grande que tenho certeza que sorria pra ela.
Ao longo da vida, poucas pessoas me despertaram esse sentir, misto de admiração e vontade física de ficar parada ombro a ombro, atraída feito imã... Depois de adulta, só um rapaz, por quem quase optei, na mesma época em que conheci meu marido.
Até hoje isso me intriga. Sentimento inominado. E sempre por pessoas com quem eu nunca me relacionei de verdade, não de maneira íntima ou sexual. Nunca mais vi Renata ou aquele rapaz de novo. Pessoas que em geral apenas passaram.
Uma estranha atração, mas de um amor profundo e instântâneo. Um amor polaroid.
Minha mãe não apreciava o fato, o que tornava mais que adequada a minha presença na sala durante as conversas dos dois.
Renata tinha uma irmã gêmea, seus dezoito anos, cabelos bem pretos presos num rabo de cavalo e na minha memória sempre trajava um short jeans bem curto, regata preta, chinelos de dedo de couro e ostentava nas mãos um chaveiro do mesmo material, que devia ser de um carro ou moto, não lembro ao certo...
Ela exercia um verdadeiro fascínio sobre mim, uma criança de dois pra três anos... Eu intuía que aquele modo de vestir e aquela chave nas mãos representavam pra mim a liberdade, antes mesmo de saber o que isso significava, o que fazia com que aquela visita, bisbilhoteira e incômoda para minha mãe, me fosse tão agradável.
Naquela idade eu não falava muito. Mas era uma observadora muito mais atenta do que sou hoje.
A presença de Renata me transportava para um estado de euforia, mais que isso, me despertava um sensação ou sentimento sem nome.
Eu tinha vontade de me prostrar ao lado dela, ombro com ombro, quase encostando, e de vez em quando olhar bem fixamente em seu rosto, porém de maneira furtiva.
Não que ela ou meu pai notassem a minha presença na sala. Então eu me metia em baixo da cadeira dela, enquanto eles conversavam, e quando não suportava mais não existir praqueles dois, dava um puxão com toda força no rabo de cavalo de Renata, despertando abruptamente sua atenção.
Obviamente que aquela moça, tão adulta perto de mim, não gostava de ser chamada para minha realidade infantil daquela forma.
Eu, por outro lado, sentia uma satisfação tão grande que tenho certeza que sorria pra ela.
Ao longo da vida, poucas pessoas me despertaram esse sentir, misto de admiração e vontade física de ficar parada ombro a ombro, atraída feito imã... Depois de adulta, só um rapaz, por quem quase optei, na mesma época em que conheci meu marido.
Até hoje isso me intriga. Sentimento inominado. E sempre por pessoas com quem eu nunca me relacionei de verdade, não de maneira íntima ou sexual. Nunca mais vi Renata ou aquele rapaz de novo. Pessoas que em geral apenas passaram.
Uma estranha atração, mas de um amor profundo e instântâneo. Um amor polaroid.
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