Meu chefe fuma. Desde que eu parei de fumar, tenho a impressão de que ele pensa que eu cobiço cada tragada que alguém dá em um cigarro.
Hoje eu tive a chance de dizer que não é bem assim. Ele elogiou o café e eu disse que concordava. Ele me olhou espantado e eu disse que voltei a tomar café porque não sentia mais vontade de fumar. Os fumantes que tomam café, sempre associam uma coisa a outra. Ele me parabenizou e eu atribui o sucesso a um remedinho que estou tomando (sou a garota propaganda da bupropiona).
Então ele me disse, num raro momento de conversa amena, que consegue ficar o dia todo sem fumar, se ele souber que à noite vai poder acender o cigarro.
Isso me lançou numa reflexão estranha. O problema de parar de fumar é pensar que é para sempre. Se não for para sempre, você não deixou de ser fumante. Se fumar de vez em quando, é fumante eventual, mas é fumante.
E aí é que mora o problema. O tal do para sempre.
Para sempre me parece uma sentença de danação no inferno. Ainda que a princípio a proposta seja boa. Por exemplo, você está apaixonado. Mas basta dizer que você vai ficar casado pra sempre com fulana pro sonho acabar. Tá bom, ainda que não acabe, a idéia parece muito menos atraente. Isso quer dizer que, no metter what, você vai passar o resto da vida fazendo sexo com a mesma pessoa, acordando e dormindo ao lado dela, brigando, fazendo as pazes (If lucky). E isso implica em renúncia a todas as outras pessoas com quem você poderia se envolver, pelo menos dentro da idéia de um casamento monogâmico.
Mas vamos piorar um pouco: Imagine a seguinte frase: Você vai ficar nesse emprego pra sempre. Aí sim acabou a minha vontade de levantar da cama. Mesmo chefe, mesmos colegas de trabalho, ou pior, colegas de trabalho que passam e você sempre fica. É quase pior que o “entre quatro paredes” do Sartre. Sartre achava que o inferno são os outros. Eu acho que o inferno é o tal do para sempre.
Você vai morar nessa cidade pra sempre, pra sempre esses serão os seus amigos, pra sempre vai passar as férias ali, pra sempre vai seguir essa rotina.
Rotina por si só já é ruim, pois implica na repetição dos mesmos atos metodicamente em um determinado espaço de tempo, como a semana. Pode até dar a sensação de segurança de uma vida no eixo, mas não tem surpreza.
O que mata no pra sempre é a falta de novidade, a falta de desafio.
Não quero ser de jeito nenhum para sempre. Até porque o único pra sempre que eu queria não existe: o feliz pra sempre. Mas pensando bem, até o feliz pra sempre ia acabar sendo um saco.
Prefiro a intensidade do que não é durável. A novidade do sem rumo certo. O desafio de tornar diferente o mesmo relacionamento. Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante. Beijo Raul...