Minha mãe não apreciava o fato, o que tornava mais que adequada a minha presença na sala durante as conversas dos dois.
Renata tinha uma irmã gêmea, seus dezoito anos, cabelos bem pretos presos num rabo de cavalo e na minha memória sempre trajava um short jeans bem curto, regata preta, chinelos de dedo de couro e ostentava nas mãos um chaveiro do mesmo material, que devia ser de um carro ou moto, não lembro ao certo...
Ela exercia um verdadeiro fascínio sobre mim, uma criança de dois pra três anos... Eu intuía que aquele modo de vestir e aquela chave nas mãos representavam pra mim a liberdade, antes mesmo de saber o que isso significava, o que fazia com que aquela visita, bisbilhoteira e incômoda para minha mãe, me fosse tão agradável.
Naquela idade eu não falava muito. Mas era uma observadora muito mais atenta do que sou hoje.
A presença de Renata me transportava para um estado de euforia, mais que isso, me despertava um sensação ou sentimento sem nome.
Eu tinha vontade de me prostrar ao lado dela, ombro com ombro, quase encostando, e de vez em quando olhar bem fixamente em seu rosto, porém de maneira furtiva.
Não que ela ou meu pai notassem a minha presença na sala. Então eu me metia em baixo da cadeira dela, enquanto eles conversavam, e quando não suportava mais não existir praqueles dois, dava um puxão com toda força no rabo de cavalo de Renata, despertando abruptamente sua atenção.
Obviamente que aquela moça, tão adulta perto de mim, não gostava de ser chamada para minha realidade infantil daquela forma.
Eu, por outro lado, sentia uma satisfação tão grande que tenho certeza que sorria pra ela.
Ao longo da vida, poucas pessoas me despertaram esse sentir, misto de admiração e vontade física de ficar parada ombro a ombro, atraída feito imã... Depois de adulta, só um rapaz, por quem quase optei, na mesma época em que conheci meu marido.
Até hoje isso me intriga. Sentimento inominado. E sempre por pessoas com quem eu nunca me relacionei de verdade, não de maneira íntima ou sexual. Nunca mais vi Renata ou aquele rapaz de novo. Pessoas que em geral apenas passaram.
Uma estranha atração, mas de um amor profundo e instântâneo. Um amor polaroid.
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